O futebol é considerado, muitas vezes, um universo à parte. E, no entanto, penso que em determinadas ocasiões retrata, com uma curiosa fidelidade, os vários aspectos do mundo em que vivemos. Vem isto a propósito do Campeonato do Mundo de Futebol FIFA 2010, recentemente realizado na África do Sul, e que me suscitou um conjunto de reflexões inspiradoras para este artigo. Reflexões que, como o leitor já terá adivinhado, dizem respeito à participação de Portugal. Não creio que se possa considerar positiva a nossa participação no Mundial. Sim, o leitor pode argumentar que atingimos o objectivo mínimo (passar a primeira fase e chegar aos oitavos-de-final), e que nos 4 jogos efectuados marcámos 7 golos e sofremos apenas 1... É verdade. Mas atenção: todos - repito, todos - os 7 golos foram apontados no mesmo jogo (contra a Coreia do Norte, talvez a selecção mais fraca das 32 apuradas para a fase final). Ou seja, em 3 jogos, ou 270 minutos, a Selecção Portuguesa não foi capaz de marcar um golito sequer para amostra!... E, à excepção desse jogo com os norte-coreanos, a nossa equipa deu sempre uma imagem triste, receosa, desmoralizada, conformada. Sem confiança. Como, aliás, já tinha acontecido na fase de apuramento - em que só à última hora, e já num play-off com a Bósnia, garantimos de forma muito sofrida a presença na África do Sul. Um bom retrato do estado que o País atravessa, quer no campo financeiro (com o recurso ao crédito dificultado, quer para o Estado, quer para os bancos - e, naturalmente, a partir dai, para toda a sociedade), quer económico (desde há cerca de dez anos que vimos empobrecendo face à Europa), ou social (o desemprego está em máximos históricos).
Ora, penso que, tal como os portugueses não são, em geral, inferiores aos outros povos, também os nossos jogadores nada ficam a dever aos dos outros países. E, no entanto, foi penoso verificar como verdadeiros craques, que jogam fora do País e são considerados verdadeiras mais-valias nas suas equipas, fizeram muito pouco na fase final do Mundial (e também nos jogos de apuramento). É o caso de Cristiano Ronaldo (reconhecidamente considerado dos melhores jogadores do Mundo), Deco, Simão Sabrosa, Danny entre outros. É como se, passando a fronteira, se transformassem e atingissem patamares de eficácia e excelência que o País gostaria de ver replicados na “equipa de todos nós”. Uma história que, se pensarmos bem, se repete, em geral, com os nossos emigrantes, considerados trabalhadores exemplares nos países para onde se deslocam... o que se reflecte nos resultados alcançados. Um exemplo?... O Luxemburgo, onde mais de um quarto da população é de origem portuguesa, é o país mais produtivo da Europa. Já em Portugal, a produtividade mantém-se, desde há vários anos, em redor de70% da média europeia - com as estatísticas a mostrarem que os portugueses são dos povos que, na Europa, mais horas por dia passam no seu local de trabalho. Como explicar este fenómeno?...
Para além de várias alterações estruturais que em múltiplos domínios são necessárias para reduzir custos de contexto e tornar Portugal mais competitivo (matéria sobre a qual tantas vezes tenho escrito), tenho para mim que se trata também de uma questão de liderança, de motivação, de organização, enfim, de uma envolvente que dificulta o cumprimento das tarefas de cada um. Ora, creio que ser esta a realidade que se vive na selecção portuguesa de futebol - quer ao nível directivo, quer técnico, em que penso que a liderança exercida tem deixado muito a desejar. Quanto ao seleccionador nacional, não cria entusiasmo nem empatia, é muito teórico, mesmo burocrático (quase apetece dizer que saudades do estilo de Scolari - que, com todos os seus defeitos, conseguia galvanizar o País...); não reconhece, em geral, as suas próprias limitações, quer ao nível da liderança e da motivação dos comandados, mas também da construção das equipas, da leitura de jogo e, consequentemente, das substituições efectuadas (como, infelizmente, se pôde constatar na África do Sul); culpa sempre terceiros (dirigentes, árbitros, relvado, clima, etc.) pelos seus conhecidos insucessos (Selecção, Sporting, Real Madrid, novamente Selecção), numa forma tão portuguesa de estar. Já quanto à Federação e ao seu Presidente, creio que as conclusões da análise à prestação da selecção no Mundial dizem tudo: foram cumpridos os mínimos, pelo que o lugar do seleccionador não está em causa (!) mas deverá haver alterações na equipa técnica, a anunciar depois de auscultado o seleccionador: Que, sem surpresa, considera ter condições para continuar pois cumpriu os tais mínimos!...
É claro que tudo ficará na mesma - quando o nosso futebol só ganharia com a substituição dos seus responsáveis federativos, quer dirigentes, quer técnicos. Foi de tal forma confrangedora a forma como nos qualificámos para o Mundial e, depois, como jogámos na África do Sul que, sinceramente, me custa a entender como pode haver satisfação pela obtenção dos mínimos... É como quando assistimos à satisfação do primeiro-ministro porque, num trimestre, o PIB cresceu acima do previsto (esquecendo os 10 anos a marcar passo...). Ou porque o Banco de Portugal reviu em alta, em algumas décimas, o miserável crescimento que nos espera para este ano. De fraqueza em fraqueza, assim vamos definhando. E dos fracos não reza a história. No futebol como no resto. |